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Doutrina


O QUE É UMBANDA
A Umbanda é fundamentada pelos espíritos incorporantes que conquistam a mente e o coração das pessoas, por meio do auxílio espiritual. Por vontade dos seus mentores, a Umbanda incorporou os nomes iorubas das divindades, sua teogonia (conjunto de divindades de um povo), sua teofania (aparição ou revelação da divindade), sua cosmogonia (teoria da fundação do mundo) e sua androgenesia (ciência que estuda o desenvolvimento físico e moral da espécie humana), unificando todo o universo religioso umbandista. Temos na Umbanda conhecimentos herdados das muitas nações africanas, os quais podemos verificar até nos nomes das linhas de trabalhos dos pretos-velhos: Congo, Angola, Guiné, Keto, Cambinda, Conga, Mina...
Temos também o conhecimento religioso dos índios. Erês - na maioria são seres encantados, manipuladores naturais de energias elementares. Têm o poder de mexer com a psique dos médiuns e descontraí-los, aliviando seus subconscientes dos problemas do dia-a-dia.
Exu - abre caminho para que este universo magístico se manifeste com segurança.
Diversidade de nomes - um Orixá sendo cultuado por diversos nomes
Fonte;
Rubens Saraceni

O QUE É CANDOMBLÉ

O objetivo dessas obrigações é a obtenção de força ou "axé" tanto para a roça de Candomblé quanto para seus membros e participantes. O axé palavra tão popular atualmente nada mais é do que a energia que emana dos Orixás, que precisa ser renovada e acumulada. Além da vida o Candomblé também exalta as forças da natureza. Muito antes de qualquer ecologista nossos antepassados já as defendiam e cultuavam. As folhas, os rios e mares, os minerais, enfim, todos os elementos naturais que compõem a terra, são muito importantes para nós. Temos que sentir o movimento da natureza, possuir o conhecimento do fogo, da água, da terra, do ar, e também dos elementos que os compõem. A natureza comunica-se conosco, basta saber interpretá-la corretamente. Ela nos auxilia, por exemplo, a saber, se uma determinada oferenda está sendo colocada no local adequado, se não está faltando nada, se o tempo está favorável, se é preciso esperar que algo aconteça antes de continuarmos, se o orixá está satisfeito, enfim, são vários os detalhes que precisam ser observados para o sucesso do nosso trabalho.
O Candomblé é uma religião monoteísta, ou seja, crê em um único Deus, a quem chamamos Olorun (para os Yorubás), Zambi (para os Bantus). Os Orixás foram criados por ele para ajudá-lo no processo de criação do mundo e de tudo o que nele existe.
A sofisticação estética dos ritos do Candomblé contribui, sem dúvida, para a atração que exerce nas pessoas em geral e, particularmente, nos meios artísticos. As cerimônias abertas de cada casa de culto têm a característica de uma "festa". As divindades que nelas se manifestam não vêm para pregar ou distribuir conselhos. Vêm expressar a sua energia vital, dançando. Fazem isto de modo solene, seguindo uma estrita lógica ritual, comandada pelo som dos atabaques e dos cantos. Vestem-se com pompa e produzem um gestual codificado identificador de cada Orixá. As festas terminam invariavelmente com um jantar aberto ao público feito de comidas sagradas relativas ao evento da noite.
Fonte: http://danytioya.sites.uol.com.br/religiao.htm

O que é Orixá

Na aurora de sua civilização o povo africano mais tarde conhecido pelo nome de Iorubá, chamado de nagô no Brasil e lucumi em Cuba, acreditava que forças sobrenaturais impessoais, espíritos, ou entidades estavam presentes ou corporificados em objetos e forças da natureza. Tementes dos perigos da natureza que punham em risco constante a vida humana, perigos que eles não podiam controlar, esses antigos africanos ofereciam sacrifícios para aplacar a fúria dessas forças, doando sua própria comida como tributo que selava um pacto de submissão e proteção e que sedimentam as relações de lealdade e filiação entre os homens e os espíritos da natureza. Muitos desses espíritos da natureza passaram a ser cultuados como divindades, mais tarde designados Orixás, detentoras do poder de governar aspectos do mundo natural, como o trovão, o raio e a fertilidade da terra, enquanto outros foram cultuados como guardiões de montanhas, cursos d'água, árvores e florestas. Cada rio, assim, tinha seu espírito próprio com o qual se confundia construindo-se em suas margens os locais de adoração nada mais que o sítio onde eram deixadas as oferendas. Um rio pode correr calmamente pelas planícies ou precipita-se em quedas e corredeiras, ser uma benfazeja fonte de alimentação piscosa, mas igualmente afogar em suas águas os que nelas se banham. Esses atributos do rio que o torna ao mesmo tempo provedor e destruidor passaram a ser também o de sua divindade guardiã. Como cada rio é diferente, seu espírito, sua alma, também tem características específicas. Muitos dos espíritos dos rios são homenageados até hoje, tanto na África, em território Iorubá como nas Américas para onde o culto foi trazido pelos negros durante a escravidão e num curto período após a abolição, embora tenham com o passar do tempo se tornado independentes de sua base original na natureza. São eles Iemanjá, divindade do rio Ogum, Oiá ou Iansã, deusa do rio Níger, assim como Oxum, Obá, Ewá, Logum Edé, Erinlé e Otim, cujos rios conservam ainda hoje o mesmo nome de sua divindade. No Brasil assim como em Cuba, Iemanjá ganhou o patronato do mar que na África pertencia a Olocum, enquanto os demais Orixás de rio deixaram de estarem referidos a seus cursos d'água originais ganhando novos domínios, cabendo a Oxum o governo dos rios em geral e de todas as águas doces. A economia desses povos desenvolveu-se com base na agricultura, caça, pesca e artesanato, com intensa e importante atividade comercial concentrada nos mercados das cidades, para onde acorria a produção das diferentes aldeias e cidades. Podemos ver nessa sociedade em formação um deslocamento dos Orixás do plano dos fenômenos da natureza para o plano da divisão social do trabalho, assumindo os Orixás a característica de guardiões de atividades essenciais para a vida em sociedade. O culto às divindades continuou sendo local, podendo a mesma atividade ser guardada por deuses locais distintos. Só muito mais tarde alguns Orixás foram elevados à categoria de Orixás nacionais. Assim, na agricultura encontramos o culto a Ogum e Orixá-Ocô, enquanto as atividades de caça estavam guardadas por Oxóssi, Logum Edé, Erinlé e muitos outros orixás caçadores conhecidos genericamente pelo nome de Odé que significa Caçador. No Brasil onde a geografia africana deixou de ter sentido alguns Orixás de rio como Logum e Erinlé ficaram restritos à caça embora se faça referência também a seus atributos de pescadores especialmente no caso de Logum Edé. No caso de Ogum, há uma relação direta entre a agricultura e o artesanato do ferro que permitiu a produção das ferramentas agrícolas, o mesmo ferro com que se fazem as armas de guerra, faca, facão, espada, e que transformou Ogum no deus da metalurgia e da guerra, numa emblemática expansão de um culto que se iniciou em referência ao plano da natureza (o ferro) para depois se fixar no domínio das (agricultura, metalurgia, guerra). A importância do minério extraído da natureza define-se por sua aplicação na cultura e leva à constituição de um culto que ao mesmo tempo deseja propiciar as forças sobrenaturais para garantir o acesso ao minério e o sucesso nas atividades que usam artefatos com ele produzidos. Quanto mais o trabalho se especializava, mais o Orixá se liberava do mundo natural e mais próximo se situava do mundo do trabalho, isto é, do mundo da cultura, das atividades sociais, do mundo do homem, enfim. A antiga religião de caráter animista, ou seja, de crença de que cada objeto do mundo em que vivemos é dotado de um espírito, em algum momento primordial fundiu-se com o culto dos antepassados. Podemos definir o culto dos antepassados como o conjunto de crenças, mitos e ritos que regulam os vínculos de uma comunidade com um número grande de mortos que viveram nessa comunidade e que estão ligados a ela por parentesco, segundo linhagens familiares, acreditando-se que os mortos têm o poder de interferir na vida humana, devendo então ser propiciados, aplacados por meio das práticas sacrificiais para o bem-estar da comunidade. Através do sacrifício o antepassado participa da vida dos viventes, compartilhando com eles o fruto do sucesso das colheitas, das caçadas, da guerra e assim por diante. Embora todo morto mereça respeito e sacrifício, são os mortos ilustres os que se colocam no centro do culto. São os fundadores das antigas linhagens familiares, os heróis conquistadores, fundadores de cidades, o que inclui os falecidos pertencentes à família real, especialmente o rei. Alguns antepassados, sobretudo os de famílias e cidades que lograram expandir seu poder e seu domínio além de seus muros, acabaram sendo hevemerizados, isto é, deificados ocupando no universo religioso o mesmo status de um Orixá da natureza, muitas vezes confundindo-se com eles. Assim, Xangô é ao mesmo tempo o Orixá do trovão que rege as intempéries e o antepassado mítico hevemerizado que um dia teria sido o quarto rei da cidade de Oió. Como rei é o regulador das atividades ligadas ao governo do mundo profano, do qual é o magistrado máximo assumindo assim, o patronato da justiça. Muitos reis, míticos ou não, foram alçados à dignidade de Orixá. Por outro lado, muitos Orixás que já mereciam cultos ganharam também a conotação de antepassado especialmente como rei. Como ocorreu com Ogum, lembrado como rei de Irê e Oxaguiã rei de Ejibô entre outros. Ainda hoje no Brasil essas cidades são lembradas nas cantigas que falam de Ogun Onirê o rei de Irê e Oxaguiã Elejibô o rei de Ejibô. Confrarias de sacerdotes especializados também se organizaram em função de divindades atividades relacionadas a atividades mágico-religiosas específicas, como os adivinhadores ou Babalaôs, reunidos no culto de Orumilá ou Ifá o deus do oráculo e os curadores herbalistas, ou olossains, dedicados a Ossaim, o Orixá que detém o poder curativo das plantas. Tanto Orumilá como Ossaim tiveram culto nacional em território Iorubá uma vez que seus sacerdotes ofereciam seus serviços a todos os que deles precisassem não estando suas atividades circunscritas aos cultos familiares ou de cidades. Exú Orixá do mercado e da comunicação entre os deuses e entre estes e os humanos, também ganhou culto sem fronteiras familiares ou citadinas. Com a expansão política de algumas cidades e a incorporação de outros territórios, deuses locais passaram a ter um culto mais generalizado, o que transformou Xangô num deus cultuado em todo o território controlado por Oió que teve o maior dos impérios Iorubás. Iemanjá originalmente uma divindade ebgá de rio, cultuada em território de Abeocutá, transformou-se em objeto do culto às ancestrais femininas, sendo homenageada no início dos festejos dedicados às grandes mães ancestrais no festival Geledé, cuja celebração envolve várias cidades.
Através da instituição do culto aos antepassados, os antigos iorubás estabeleceram as bases míticas de sua própria origem como povo, deificando seus mais antigos heróis, fundadores de cidades e impérios, aos quais se atribuiu a criação não somente do povo iorubá como de toda a humanidade. Dá-se assim a gênese do orixá Odudua, rei e guerreiro, considerado o criador da Terra, e de Obatalá também chamado Orixanlá e Oxalá o criador da humanidade, além de muitos outros deuses que com eles fazem parte do panteão da criação, como Ajalá e Oxaguiã. O contato entre os povos africanos, tanto em razão de intercâmbio comercial como por causa das guerras e domínio de uns sobre outros propiciou a incorporação pelos Iorubás de divindades de povos vizinhos, como os voduns dos povos fons, chamados jejes no Brasil, entre os quais se destaca Nanã, antiga divindade da terra, e Oxumarê, divindade do arco-íris. O deus da peste que recebe os nomes de Omulu, Olu Odo, Obaluaê, Ainon, Sakpatá e Xamponã ou Xapanã, resultou da fusão da devoção a inúmeros deuses cultuados em territórios Iorubá, fon e nupe. As transformações sofridas pelo deus da varíola, descritas por Claude Lépine (1998), até sua incorporação ao panteão contemporâneo dos orixás, mostra a importância das migrações e das guerras de dominação na vida desses povos africanos e seu papel na constituição de cultos e conformação de divindades. Humanas Quanto mais os orixás foram se afastando da natureza, mais foram ganhando forma antropomórfica. Os mitos falam de deuses que pensam e agem como os humanos, com os quais partilham sentimentos, propósitos, comportamentos e emoções. Seus patronatos especializaram-se em aspectos da cultura e da vida em sociedade que melhor atendiam às necessidades individuais dos seus devotos, embora possam manter referências ao original mundo. Com a vinda para as Américas, ao processo de antropormofização e mudança ou diversificação do patronato adicionou-se a unificação do panteão, passando orixás de diferentes localidades a serem cultuados juntos nos mesmos locais de culto, no caso do Brasil, os terreiros de Candomblé, ocorrendo mais forte especialização na divisão do trabalho dos deuses guardiões.
Assim, Iemanjá agora rainha do mar é a protetora da maternidade e do equilíbrio mental; Oxum ganha as águas doces e a prerrogativa de governar a fertilidade humana e o amor; Ogum governa o ferro e a guerra, mas também é aquele que abre todos os caminhos e oportunidades sociais; Xangô Orixá do trovão é o dono da justiça. E assim por diante. Como a religião dos Orixás foi refeita no Brasil por africanos ou descendentes que no século XIX viviam nas grandes cidades costeiras, ocupando-se em atividades urbanas fossem eles escravos ou livres a preocupação com atividades agrícolas era muito secundária, de sorte que os Orixás do campo foram esquecidos ou tiveram seus governos reorganizados. O culto a Orixá-Ocô se perdeu e hoje raramente alguém se lembra de Ogum como Orixá do campo. Também os Orixás da caça perderam com a nova sociedade. Oxossi ganhou a responsabilidade de zelar pela fartura de alimentos, mas não há mais caçadores para cultuá-lo e muitos Odés foram reagrupados no culto de Oxóssi como ocorreu com Erinlé e Otim. O grande papel de Oxossi no Brasil na verdade decorre de sua condição de patrono da nação queto, instituída com a fundação dos candomblés baianos Casa Branca do Engenho Velho, Gantois e Axé Opô Afonjá, e que é uma referência à cidade africana de Queto, hoje situada no Benin da qual Oxóssi era o Orixá da casa real e onde atualmente está praticamente esquecido. Mudanças recentes nas condições de vida, inclusive em termos de saúde pública, fizeram de Omulu o médico dos pobres brasileiros, mas hoje ele está longe de ser cultuado por causa da varíola, seu domínio original, praticamente eliminada em nossa sociedade. No Brasil com a concentração do culto aos Orixás nos terreiros sob a autoridade suprema do pai ou mãe-de-santo, antigas confrarias africanas especializadas desapareceram uma vez que o pai-de-santo passou a controlar toda e qualquer atividade religiosa desenvolvida nos limites de sua comunidade de culto. Diferentes povos tiveram diferentes preocupações com a natureza. Os iorubás, como povo da floresta pouco se interessaram pelos astros, que ocuparam posição importante nos sistemas religiosos de povos que viviam em lugares abertos e altos. Para os Iorubás as florestas e os rios eram mais importantes que a lua ou as estrelas. Sua semana de quatro dias não tem relação com as fases da lua, que em muitos povos originou a semana de sete dias. Habitando o interior longe do marlhes faltou certamente a observação da maré associada às fases da lua para estabelecer um calendário lunar. A morada dos deuses e dos espíritos dos Iorubás, emblematicamente não fica no céu, mas sob a superfície da terra. No Brasil as referências à natureza foram, contudo, simbolicamente mantidas nos altares que são os assentamentos dos Orixás e em muitos outros elementos rituais. Desse modo como na África seixos provenientes de algum curso d’água não podem faltar no assentamento dos Orixás de rio, confundindo-se as pedras com os próprios Orixás. Pedaços de meteoritos, as pedras de raio do assento de Xangô, lembram a identificação deste Orixá com o raio e o trovão. Objetos de ferro são usados para o assentamento de Ogum. E assim por diante. O Candomblé também conserva a idéia de que as plantas são fonte de Axé a força vital sem a qual não existe vida ou movimento e sem a qual o culto não pode ser realizado. A máxima Ioruba "kosi ewê kosi orixá" que pode ser traduzida por "não se pode cultuar Orixás sem usar as folhas", define bem o papel das plantas nos ritos. As plantas são usadas para lavar e sacralizar os objetos rituais, para purificar a cabeça e o corpo dos sacerdotes nas etapas iniciáticas, para curar as doenças e afastar males de todas as origens. Mas a folha ritual não é simplesmente a que está na natureza, mas aquela que sofre o poder transformador operado pela intervenção de Ossaim, cujas rezas e encantamentos proferidos pelo devoto propiciam a liberação do Axé nelas contido. Há algumas décadas a floresta fazia parte do cenário do terreiro de candomblé e as folhas estavam todas disponíveis para colheita e sacralização. Com a urbanização o mato rareou nas cidades obrigando os devotos a manter pequenos jardins e hortas para o cultivo das ervas sagradas ou então se deslocar para sítios afastados, onde as plantas podem crescer livremente. Com o passar do tempo, novas especializações foram surgindo no âmbito da religião e hoje as plantas rituais podem ser adquiridas em feiras comuns de abastecimento e nos estabelecimentos que comercializam material de culto. Exemplo maior, no Mercadão de Madureira, no subúrbio do Rio de Janeiro, pródigo na oferta de objetos rituais, vestimentas e ingredientes para o culto dos Orixás, mais de vinte estabelecimentos vendem, exclusivamente, toda e qualquer folha necessária aos ritos de Ossaim. Bem longe da natureza. Embora a concepção de Orixá esteja hoje bem distante da natureza, muitas celebrações se fazem em locais que lembram as antigas ligações como as festas de Iemanjá junto ao mar, como despachos feitos na água corrente, na lagoa, no mato, na pedreira, na estrada etc., de acordo com o Orixá a que se destinam. Com a recente preocupação com o meio ambiente, o Candomblé tem sido muito lembrado como religião da natureza, apontando-se muitos terreiros como modelares na preservação ambiental. Alguns líderes, de fato, têm procurado se engajar em movimentos preservacionistas, alertando os seguidores dos Orixás da necessidade de se defender da poluição ambiental local usado pela religião, como cachoeiras e fontes, lagos e bosques. Alguns defendem a necessidade do próprio candomblé deixar de usar nas oferendas feitas fora do terreiro e nos despachos material não biodegradável. Nesse clima de "retorno ao mundo natural", de preocupação com a ecologia, um Orixá quase inteiramente esquecido no Brasil vem sendo aos poucos recuperado. Trata-se de Onilé a Dona da Terra o Orixá que representa nosso planeta como um todo o mundo em que vivemos. O mito de Onilé pode ser encontrado em vários poemas do oráculo de Ifá, estando vivo ainda hoje no Brasil na memória de seguidores do Candomblé iniciados há muitas décadas. Assim a mitologia dos Orixás nos conta como Onilé ganhou o governo do planeta Terra: Onilé era a filha mais recatada e discreta de Olodumare. Vivia trancada em casa do pai e quase ninguém a via. Quase nem se sabia de sua existência. Quando os Orixás seus irmãos se reuniam no Palácio do grande pai para as grandes audiências em que Olodumare comunicava suas decisões, Onilé fazia um buraco no chão e se escondia, pois sabia que as reuniões sempre terminavam em festa, com muita música e dança ao ritmo dos atabaques. Onilé não se sentia bem no meio dos outros. Um dia o grande deus mandou os seus arautos avisarem: haveria uma grande reunião no Palácio e os Orixás deviam comparecer ricamente vestidos, pois ele iria distribuir entre os filhos as riquezas do mundo e depois haveria muita comida, música e dança. Por todos os lugares os mensageiros gritaram esta ordem e todos se prepararam com esmero para o grande acontecimento. Quando chegou por fim o grande dia, cada Orixá dirigiu-se ao Palácio na maior ostentação cada um mais belamente vestido que o outro, pois este era o desejo de Olodumare. Iemanjá chegou vestida com a espuma do mar, os braços ornados de pulseiras de algas marinhas, a cabeça cingida por um diadema de corais e pérolas, o pescoço emoldurado por uma cascata de madrepérola. Oxossi escolheu uma túnica de ramos macios, enfeitada de peles e plumas dos mais exóticos animais. Ossaim vestiu-se com um manto de folhas perfumadas. Ogum preferiu uma couraça de aço brilhante, enfeitada com tenras folhas de palmeira. Oxum escolheu cobrir-se de ouro, trazendo nos cabelos as águas verdes dos rios. As roupas de Oxumarê mostravam todas as cores, trazendo nas mãos os pingos frescos da chuva. Iansã escolheu para vestir-se um sibilante vento e adornou os cabelos com raios que colheu da tempestade. Xangô não fez por menos e cobriu-se com o trovão. Oxalá trazia o corpo envolto em fibras alvíssimas de algodão e a testa ostentando uma nobre pena vermelha de papagaio. E assim por diante não houve quem não usasse toda a criatividade para apresentar-se ao grande pai com a roupa mais bonita. Nunca se vira antes tanta ostentação, tanta beleza, tanto luxo. Cada Orixá que chegava ao Palácio de Olodumare provocava um clamor de admiração que se ouvia por todas as terras existentes. Os Orixás encantaram o mundo com suas vestes. Menos Onilé.
Onilé não se preocupou em vestir-se bem.
Onilé não se interessou por nada.
Onilé não se mostrou para ninguém.
Onilé recolheu-se a uma funda cova que cavou no chão.
Quando todos os Orixás haviam chegado, Olodumare mandou que fossem acomodados confortavelmente, sentados em esteiras dispostas ao redor do trono. Ele disse então à assembléia que todos eram bem-vindos. Que todos os filhos haviam cumprido seus desejos e que estavam tão bonitos que ele não saberia escolher entre eles qual seria o mais vistoso e belo.
Tinha todas as riquezas do mundo para dar a eles, mas nem sabia como começar a distribuição. Então disse Olodumare para os Orixás para escolherem o que achavam o melhor da natureza, para com aquela riqueza se apresentar perante o pai, eles mesmos já tinham feito a divisão do mundo. Então Iemanjá ficava com o mar, Oxum com o ouro e os rios.
A Oxossi deu as matas e todos os seus bichos, reservando as folhas para Ossaim. Deu a Iansã o raio e a Xangô o trovão.
Fez Oxalá dono de tudo que é branco e puro, de tudo que é o princípio, deu-lhe a criação destinou a Oxumarê o arco-íris e a chuva.
A Ogum deu o ferro e tudo o que se faz com ele, inclusive a guerra.
E assim por diante deu a cada Orixá um pedaço do mundo, uma parte da natureza, um governo particular. Dividiu de acordo com o gosto de cada um.
E disse que a partir de então cada um seria o dono e governador daquela parte da natureza.
Assim, sempre que um humano tivesse alguma necessidade relacionada com uma daquelas partes da natureza, deveria pagar uma prenda ao Orixá que a possuísse.
Pagaria em oferendas de comida, bebida ou outra coisa que fosse da predileção dos Orixás, que tudo ouviram em silêncio começaram a gritar e a dançar de alegria, fazendo um grande alarido na corte. Olodumare pediu silêncio, ainda não havia terminado. Disse que faltava ainda a mais importante das atribuições.
Que era preciso dar a um dos filhos o governo da Terra, o mundo no qual os humanos viviam e onde produziam as comidas, bebidas e tudo o mais que deveriam ofertar aos Orixás disse que dava a Terra a quem se vestia da própria Terra.
Quem seria? Perguntavam-se todos?
"Onilé", respondeu Olodumare.
"Onilé?" todos se espantaram.
Como, se ela nem sequer viera à grande reunião?
Nenhum dos presentes a vira até então.
Nenhum sequer notara sua ausência.
"Pois Onilé está entre nós", disse Olodumare e mandou que todos olhassem no fundo da cova, onde se abrigava vestida de terra, a discreta e recatada filha. Ali estava Onilé em sua roupa, a que também foi chamada de Ilê, a casa, o planeta. Olodumare disse que cada um que habitava a Terra pagasse tributo a Onilé, pois ela era a mãe de todo o abrigo, a casa. A humanidade não sobreviveria sem Onilé. Afinal, onde ficava cada uma das riquezas que Olodumare partilhara com filhos Orixás?
"Tudo está na Terra", disse Olodumare.
"O mar e os rios, o ferro e o ouro,
Os animais e as plantas, “tudo”, continuou. "Até mesmo o ar e o vento, a chuva e o arco-íris, tudo existe porque a Terra existe, assim como as coisas criadas para controlar os homens e os outros seres vivos que habitam o planeta, como a vida, a saúde, a doença e mesmo a morte". Pois então, que cada um pagasse tributo a Onilé, foi à sentença final de Olodumare. Onilé, Orixá da Terra, receberia mais presentes que os outros, pois deveria ter oferendas dos vivos e dos mortos, pois na Terra também repousam os corpos dos que já não vivem. Onilé também chamada Aiê, a Terra, deveria ser propiciada sempre para que o mundo dos humanos nunca fosse destruído.
Todos os presentes aplaudiram as palavras de Olodumare.
Todos os Orixás aclamaram Onilé.
Todos os humanos propiciaram a mãe Terra.
E então Olodumare retirou-se do mundo para sempre e deixou o governo de tudo por conta de seus filhos Orixás. Cultuada discretamente em terreiros antigos da Bahia e em Candomblés africanizados, a Mãe Terra desperta curiosidade e interesse entre os seguidores dos Orixás, sobretudo entre aqueles que compõem os seguimentos mais intelectualizados da religião. Onilé é assentada num montículo de terra vermelha e acredita-se que guarda o planeta e tudo que há sobre ele, protegendo o mundo em que vivemos e possibilitando a própria vida. Na África também é chamada Aiê e Ilê, Onilé, isto é, a Terra tem muitos inimigos que a exploram e podem destruí-la. Para muitos seguidores da religião dos Orixás, interessados em recuperar a relação Orixá-natureza, o culto de Onilé representaria, assim, a preocupação com a preservação da própria humanidade e de tudo que há em seu mundo e terra.
Fonte: WWW.auiadourada.com












 

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